O TEMPO ESPECTACULAR

A SOCIEDADE DO ESPECTÁCULO

GUY DEBORD

Capitulo VI

O TEMPO ESPECTACULAR

Nada de nosso temos senão o tempo, de que gozam justamente aqueles que não têm paradeiro.

Baltasar Gracián - El Oráculo Manual

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O tempo da produção, o tempo-mercadoria, é uma acumulação infinita de espaços equivalentes. É a abstracção do tempo irreversível, de que todos os segmentos devem provar ao cronómetro a sua única igualdade quantitativa. Este tempo é, em toda a sua realidade efectiva, o que ele é no seu carácter permutável. É nesta dominação social do tempo-mercadoria que «o tempo é tudo, o homem não é nada: é quanto muito a carcaça do tempo» (Miséria da Filosofia). É o tempo desvalorizado, a inversão completa do tempo como «campo de desenvolvimento humano».

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O tempo geral do não desenvolvimento humano existe também sob o aspecto complementar de um tempo consumível que regressa à vida quotidiana da sociedade, a partir desta produção determinada, como um tempo, pseudocíclico.

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O tempo pseudocíclico não é de facto mais do que o disfarce consumível do tempo-mercadoria da produção. Dele contém os caracteres essenciais de unidades homogéneas permutáveis e de supressão da dimensão qualitativa. Mas ao ser o subproduto deste tempo destinado ao atraso da vida quotidiana concreta - e à manutenção deste atraso -, ele deve estar carregado de pseudovalorizações e aparecer numa sucessão de momentos falsamente individualizados.

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O tempo pseudocíclico é o do consumo da sobrevivência económica moderna, a sobrevivência aumentada, em que o vivido quotidiano continua privado de decisão e submetido, já não a ordem natural, mas à pseudonatureza desenvolvida no trabalho alienado; e, portanto, este tempo reencontra muito naturalmente o velho ritmo cíclico que regulava a sobrevivência das sociedades pré-industriais. O tempo pseudocíclico apoia-se ao mesmo tempo nos traços naturais do tempo cíclico, e dele compõe novas combinações homólogas: o dia e a noite, o trabalho e o repouso semanais, o retomo dos períodos de férias.

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O tempo pseudocíclico é um tempo que foi transformado pela indústria. O tempo que tem a sua base na produção de mercadorias é ele próprio uma mercadoria consumível que reúne tudo o que se tinha anteriormente distinguido, quando da fase da dissolução da velha sociedade unitária em vida privada, vida económica, vida política. Todo o tempo consumível da sociedade moderna acaba por vir a ser tratado como matéria-prima de novos produtos diversificados, que se impõem no mercado como empregos do tempo socialmente organizados. «Um produto que já existe sob uma forma que o torna apropriado ao consumo pode, no entanto, tornar-se por sua vez matéria-prima de um outro produto» (O Capital).

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No seu sector mais avançado, o capitalismo concentrado orienta-se para a venda de blocos de tempo «totalmente equipados», cada um deles constituindo uma única mercadoria unificada que integrou um certo número de mercadorias diversas. É assim que pode aparecer, na economia em expansão dos «serviços» e das recriações, a modalidade do pagamento calculado «tudo incluído», para o habitat espectacular, as pseudo-deslocações colectivas de férias, o abonamento ao consumo cultural e a venda da própria sociabilidade em «conversas apaixonantes» e «encontros de personalidades». Esta espécie de mercadoria espectacular, que evidentemente não pode ter lugar senão em função da penúria aumentada das realidades correspondentes, figura, evidentemente, também entre os artigos-pilotos da modernização das vendas ao poderem ser pagas a crédito.

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O tempo pseudocíclico consumível é o tempo espectacular, ao mesmo tempo como tempo de consumo das imagens, no sentido restrito, e como imagem do consume do tempo. em toda a sua extensão. O tempo do consumo das imagens, médium de todas as mercadorias, é inseparavelmente o campo onde plenamente actuam os instrumentos do espectáculo e a finalidade que estes apresentam globalmente, como lugar e como figura central de todos os consumos particulares: sabe-se que os ganhos de tempo constantemente procurados pela sociedade moderna - quer se trate da velocidade dos transportes ou da utilização de sopas em pacotes - se traduzem positivamente para a população dos Estados Unidos neste facto: de que só a contemplação da televisão a ocupa em média três a seis horas por dia. A imagem social do consumo do tempo, por seu lado, é exclusivamente dominada pelos momentos de ócio e de férias, momentos representados à distancia e desejáveis, por postulado, como toda a mercadoria espectacular. Esta mercadoria é aqui explicitamente dada como o momento da vida real de que se trata esperar o regresso cíclico. Mas mesmo nestes momentos destinados à vida, é ainda o espectáculo que se dá a ver e a reproduzir, atingindo um grau mais intenso. O que foi representado como vida real, revela-se simplesmente como a vida mais realmente espectacular.

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Esta época, que mostra a si própria o seu tempo como sendo essencialmente o regresso precipitado de múltiplas festividades, é igualmente uma época sem festa. O que era, no tempo cíclico, o momento da participação de uma comunidade no dispêndio luxuoso da vida, é impossível para a sociedade sem comunidade e sem luxo. Quando as suas pseudofestas vulgarizadas, paródias do diálogo e do dom, excitam a um excedente de dispêndio económico, elas não trazem senão a decepção sempre compensada pela promessa de uma nova decepção. O tempo da sobrevivência moderna deve, no espectáculo, gabar-se tanto mais alto quanto mais o seu valor de uso se reduziu. A realidade do tempo foi substituída pela publicidade do tempo.

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Enquanto o consumo do tempo cíclico das sociedades antigas estava de acordo com o trabalho real dessas sociedades, o consumo pseudocíclico da economia desenvolvida encontra-se em contradição com o tempo irreversível abstracto da sua produção. Enquanto o tempo cíclico era o tempo da ilusão imóvel, realmente vivido, o tempo espectacular é o tempo da realidade que se transforma, vivido ilusoriamente.

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O que é sempre novo no processo da produção das coisas não se reencontra no consumo, que permanece o regresso alargado do mesmo. Porque o trabalho morto continua a dominar o trabalho vivo, no tempo espectacular o passado domina o presente.

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Como um outro aspecto da deficiência da vida histórica geral, a vida individual não tem ainda história. Os pseudo-acontecimentos que se amontoam na dramatização espectacular não foram vividos pelos que deles são informados e, além disso, perdem-se na inflação da sua substituição precipitada a cada pulsão da maquinaria espectacular. Por outro lado, o que foi realmente vivido está sem relação com o tempo irreversível oficial da sociedade e em oposição directa ao ritmo pseudocíclico do subproduto consumível desse tempo. Este vivido individual da vida quotidiana separada permanece sem linguagem, sem conceito, sem acesso crítico ao seu próprio passado, que não está consignado em nenhum lado. Ele não se comunica. Está incompreendido e esquecido em proveito da falsa memória espectacular do não-memorável.

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O espectáculo, como organização social presente da paralisia da história e da memória, do abandono da história que se erige sobre a base do tempo histórico, é a falsa consciência do tempo.

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Para levar os trabalhadores ao estatuto de produtores e consumidores «livres» do tempo-mercadoria, a condição prévia foi a expropriação violenta do seu tempo. O regresso espectacular do tempo não se tomou possível senão a partir desta primeira despossessão do produtor.

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A parte irredutivelmente biológica que continua presente no trabalho, tanto na dependência do cíclico natural da vigília e do sono como na evidência do tempo irreversível individual da usura de uma vida, não são mais do que acessórios face à produção moderna; e como tais, estes elementos são negligenciados nas proclamações oficiais do movimento da produção e dos trofeus consumíeis, que são a tradução acessível desta incessante vitória. Imobilizada no centro falsificado do movimento do seu mundo, a consciência espectadora já não conhece na sua vida uma passagem para a sua realização e para a sua morte. A publicidade dos seguros de vida insinua somente que é repreensível morrer sem ter assegurado a regulação do sistema depois desta perda económica; e a do american way of death (*) insiste sobre a sua capacidade de manter neste encontro a maior parte das aparências da vida. Sobre todo o resto da frente do bombardeamento publicitário é terminantemente proibido envelhecer. Tratar-se-ia de poupar, em cada qual, um «capital-juventude» que por não ter sido senão mediocremente empregado não pode, todavia, pretender adquirir a realidade durável e cumulativa do capital financeiro. Esta ausência social da morte é idêntica á ausência social da vida.

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O tempo é a alienação necessária, como o mostrava Hegel, o meio no qual o sujeito se realiza perdendo-se, tomando-se outro para se tornar a verdade de si mesmo. Mas o seu contrário é justamente a alienação dominante, que é suportada pelo produtor de um presente estranho. Nesta alienação espacial, a sociedade que separa na raiz o sujeito e a actividade que ela Ihe furta, separa-o antes de tudo do seu próprio tempo. A alienação social superável é justamente aquela que interditou e petrificou as possibilidades e os riscos de alienação viva no tempo.

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Sob os modos aparentes que se anulam e se recompõem à superfície fútil do tempo pseudocíclico contemplado, o grande estilo da época está sempre no que é orientado pela necessidade evidente e secreta da revolução.

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A base natural do tempo, o dado sensível do correr do tempo, toma-se humana e social ao existir para o homem. É o estado acanhado da prática humana, o trabalho em diferentes estádios. Que até aqui humanizou e desumanizou também o tempo, como tempo cíclico e tempo separado irreversível da produção económica. O projecto revolucionário de uma sociedade sem classes, de uma vida histórica generalizada, é o projecto de uma extensão progressiva da medida social do tempo em proveito de um modelo Iúdico de tempo irreversível dos indivíduos e dos grupos, modelo no qual estão simultaneamente presentes tempos independentes federados. É o programa de uma realização total no meio do tempo, do comunismo que suprime «tudo o que existe independentemente dos indivíduos»

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O mundo possui já o sonho de um tempo de que ele deve possuir agora a consciência para o viver realmente.

GUY DEBORD

(*) Em inglês no original (N. T.).